segunda-feira, 5 de julho de 2010

um penico para a humanidade

O AMOR VENCEU! a senhorita deve estar se perguntando: mas que porra é essa? sei lá, só precisava começar com uma frase qualquer. naquele tempo eu achava que era isso - para ser um escritor que preste tinha que começar com uma frase de impacto e depois ir amontoando um monte de merda pra justificar tudo, ou pelo menos convencer o leitor de que aquilo era mais interessante do que a t.v.

mas no funfo no fundo talvez eu estivesse enlouquecendo. por que necessitava escrever. e não escrevia. um escritor tem que escrever, não tem? na maioria das vezes eu pensava que sim. me parece muito justo que um escritor escreva. naquele tempo eu achava que um escritor que preste tinha que escrever no mínimo umas dez mil palavras por dia - isso me fazia sofrer, pois passava a maior parte do tempo fumando maconha e assistindo t.v.

eu morava sozinho. agora podia pagar o aluguel. arranjara um emprego num museu. uma porcaria de um emprego que salvou meu rabo. era até moleza se comparado com os outros, porém não deixava de ser um emprego e todo emprego não passa de lixo. basicamente eu ficava quatro horas pela manhã falando sobre segunda guerra mundial, revolução francesa e império romano pra uns pirralhos da escola. e para eles tanto fazia se Hitler ressucitasse e matasse mais um milhão de judeus e os amontoasse feito lixo. estavam pouco se fodendo. queriam era apertar as meninas, encher o cu de espinhas de tanto bater punheta. e as meninas se importavam mais em se empiriquitar de maquiagem e dar gritinhos agudos. foda-se os conflitos mundiais - eles faziam sua própria guerra de bolachas e seu corre-corre dentro do museu. pareciam ter sido mastigados e cuspidos pela t.v.

eu achava aquilo tudo um despropósito. um monte de merda cagada a toa. aluguel. emprego. museu. humanidade. imperio romano. revolução francesa. segunda guerra mundial. escolas. meninos. meninas. punheta. maquiagem. gritinhos. corre- corre. guerras de bolachas e um monte de merda sem sentido que passava na t.v.

por que o Napoleão está no topo do monte dos sábios? logo quando você entra pela portaria dá de cara com um painel eletrônico provido de um sensor de luz que dispara toda vez que alguem entra no museu interronpe o feixe de luz e automaticamente se depara com o Serra. de corpo-inteiro falando um monte de groselha. é a visao do inferno. museu do Serra patrocinado pela coca-cola em parceria com o kassab e o diabaquatro. o museu construído pelos barões do café e as empresas de estradas de ferro. e o napoleão no topo do monte dos sabios. parecia piada. coisa da t.v.

eu estava com um bandolim nas mãos e não sabia tocar. e se fosse aqueles moleques eu faria o mesmo. não, pensando bem eu faria pior. uma vez eu empurrei um menino da escada. empurrei sem nenhum motivo. só pra ver o tombo. ele desceu rolando. era franzino. quebrou o braço. chorou pra cacete. e eu apavorado também chorei. era menino. devia ter uns sete anos. levei um esculacho do diretor e uma surra do meu coroa. depois de uma semana ficamos amigos e ele até deixou que escrevesse meu nome em seu gesso.

de qualquer forma eu não via solução pr'aquilo- a humanidade e seu odor. ou o problema era grande demais para ser resolvido ou era melhor pensar que não havia problema algum. todos no fundo no fundo sabiam que saiu do controle faz tempo. alguns disfarçavam com esperança e tapavam o nariz pra revirar a merda, mas a maioria vivia moralmente atolada na merda da idade media. tempos de merda abundante. não faria diferença nenhuma se degolassem outro chefe da revolução burguesa. foda-se a burgesia e foda-se a França. os franceses fedem, eu vi na t.v. e toda aquela putaria romana não passa de merda. todo mundo sabia que a historia da humanidade era um monte de merda que fedia pra caralho - os pirralhos ainda não sabiam disso, mas já desconfiavam.

de repente me vira uma garotinha de uns seis anos e pergunta: tio, de onde vieram os humanos?

a beleza me constrange.

bem, o amor era qualquer coisa parecida com isso e venceu por que foi duro levantar o rabo da cama, desligar a t.v. e escrever isto. voce mesmo ja deve ter se sentido assim. de alguma forma sofro muito com tudo isso. a senhorita deve estar se perguntando, mas isso o que? eu sei lá. só sei que não é um sofrimento real. tipo perder uma perna ou vazar um olho ou ainda encher o cu de cancer e ficar broxa. mas é insatisfação. quase uma frescura se comparado ao sofrimento de quem dorme nas ruas fedidas de são paulo. uma maldita melancolia. será que eu to virando viado? a idéia de dar o cu me dá nauseas. acho que é amor. se for talvez me masturbe pensando em voces. essa noite, por favor lavem o cu.

nada disso de fato era real. as proprias pessoas não eram reais. sendo assim suas dores não podiam ser reais. rascunhos debilóides dentro da terrivel normalidade. esboços mal feitos pela memória afundada num mar de inconsciencia. um monte de merda boiando na falta de imaginação. quando me sentia assim enchia a cara de cachaça. já estava ficando resistente ao alcool e queria ver onde isso ia dar. eu ia de encontro a merda. por isso mais uma vez o amor venceu.

as pessoas iam se amontoando feito porcos indo pro abate de metrô. exalanvam fraqueza. encenando a tragica comedia humana. um puta moralismo de madalena arrependida. um teatro de marionetes histéricas. fanctoches querendo seus nomes em anuncios luminosos. armando seu pequeno circo de pulgas e proliferando seu lixo podre por toda parte. uns filhos da puta querendo ir pro céu. rezando bem alto e enfiando o dedo no cu escondido. se gabando. pensam que são os bacanas. que estão por dentro. na crista da onda. sabem tudo. manjam das mutretas. sabem fazer chover e levantar defunto da cova. vivem procurando cifre na cabela de cavalo. querendo um enrabar o outro. eis que o amor venceu.

quando falava francamente com deus era quando escrevia: porra! me joga um raio logo na cabeça, mas num rouba minha brisa!

e ai vem alguém e te diz: oi tudo bem. voce fala muito palavrão, devia moderar , escreve bem mas...

voce pensa- puta merda ainda bem que eu não sou esse cara. voce queria ser eu? queria ser o bukowski? não sou o bukowski. se perguntassem ao bukowski se ele queria ser o bukowski , provavelmente diria que não. e ele não era só um bebado como a maioria pensa. eu mesmo tambem não sou. mas gosto de beber. encher um copo atras do outro e engolir aquilo até o ponto da estupidez e me tornar um de voces, um merda na vida. não é isso o que querem? uma vida de merda. é sem graça, mas também não é sério. o que pensaria aquele velho? preciso escrever meu bilhete suicida antes de morrer.

onze e meia da noite. aparecem dois abutres camaradas de copo e cruz me intimando pra tomar uns birinaites e passar um giz no taco. diante de minha parca literatura escrita em papel de bar rabisco um resumo do fim da história, que já é manjada:

volto dois dias depois, duro, mas sem perder a ternura. vomito. cago. reflito sobre minha odisséia pelas quebradas noturnas do pimentas. tomo um chá de boldo e acendo um cigarro. não falo pra ninguem mas a ideia da morte me apavora. penso que eu sou um cara de sorte. podia ter morrido. eu podia ter morrido todos os dias desde que nasci. no entanto ainda estou aqui escrevendo isso. e ainda sei desenhar e jogar bola. definitivamente o amor venceu. gosto de pensar assim.

e é bom ser eu. às vezes.









quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Sr. Carpinejar

Foi um verão infernal aquele de 1999. Eu caminhava pelas ilhas de calor que se formavam naquelas ruas sujas, rachando os miolos das pessoas e o concreto armado das paredes. Sendas de abismos se abriam na terra seca e o piche derretia sob os pés, dificultando ainda mais a mesma caminhada de sempre, tornando-a ainda mais pegajosa. O mundo nunca tinha sido tão quente como naquele maldito verão. Entre suores e fadigas brotavam brotoejas por todos os poros. Aquele clima propício para a proliferação de germes e bactérias era um prelúdio do que seria num breve futuro o inferno romântico das pessoas. Com um sol de quarenta e cinco graus na cabeça eu não conseguia pensar em nada. Céu ou inferno pareciam uma coisa só e algo me dizia que mesmo com o tempo bom ou ruim forças estranhas no mundo estavam agindo para a minha ruína.

João Fontes, segure a bronca, eu disse a mim mesmo. Não é hora de fraquejar. Tente colocar o trem nos trilhos. O que está acontecendo, vamos, pense! Deixe de preguiça, homem!

Lá estava eu em Paraisópolis, aos vinte e três anos de idade. Tinha acabado de terminar o supletivo do secundário e estava desempregado. Tinha uma aparência medonha. Meu rosto era salpicado de feridas, meus dentes eram tortos e meu nariz parecia uma gigantesca noz.

Eu era filho de um operário da industria de garrafas que estava desempregado há dois anos. Minhas roupas eram quase trapos. Não tinha nem um sapato decente. E minha mãe rezava todas as noites para que eu me aprumasse na vida.

Após abandonar a pobre propriedade paterna e sair em busca de alívio para o próprio sofrimento, atingi um grau considerável de decadência e miséria. Conseguira vestir-me de todo desejo, todo ódio e toda ilusão, tornando-me praticamente um inútil. Como numa casa de mau teto, onde as águas das chuvas, entram, numa mente confusa e vazia o desejo sempre entrará.

Porém guardava dentro de mim um segredo sobre o meu futuro. Algo que me livraria daquela penumbra financeira e moral. Pensava eu ter ainda uma carta na manga. Um truque sobre minha verdade que eu mesmo teria que descobrir se quisesse usá-lo a meu favor.

Em outros tempos eu talvez não hesitasse tanto em revelar minhas veleidades, mas agora eu envelhecia muito rápido por causa do calor e da vida miserável que levava. Eu tinha que economizar em tudo; em palavras, em sonhos, em energia, até em papel higiênico, se quisesse manter alguma dignidade.

As coisas pareciam não funcionar como deviam. O mundo parecia estar de cabeça pra baixo. Não conseguia entender como haviam tantos imbecis tão bem sucedidos no mundo. Os cretinos dominam o mundo em todas as áreas. Eu não era um completo idiota, sabia disso, não me achava um gênio, pois um resto de bom senso em mim o sol ainda não havia derretido. Mas eu era algo. Algo que não deveria ser totalmente desprezado pelo mundo. Assim como eu, devia haver milhares por ai. Todos sendo tragados pela rotina, a miséria e a obscuridade. Todos com algum truque na manga esperando a hora certa para dar a cartada final que viraria o jogo. Eperando a hora que nunca vem, enquanto sustentam o luxo dos cretinos com aparência de bem sucedidos.

Porém eu era do tipo a que não bastava elogios e honrarias póstumas. Sou mundano o bastante para aceitar em vida uma recompensa financeira. Se Deus quisesse me dar algo que fosse agora. Não me encontrava em condições de recusar um milagre. Precisava de um trabalho. Um do qual me sentisse digno de realizar. Algo que fizesse algum sentido para mim e que me pagassem razoavelmente por isso, por produzir algo relevante. Mas isso deveria acontecer aqui na terra e não no além. Todavia a coisa estava tão feia que eu aceitaria de imediato, literalmente, qualquer merda, até mesmo ser limpador de latrinas.

Procurar trabalho para mim sempre foi uma das piores coisas do mundo. uma das mais constrangedoras sub-atividades que o sistema impõe às ovelhas, quer dizer, às pessoas. Eu me sentia constrangido por ter que parecer educadamente servil e aceitar qualquer migalha para fazer algo que era quase sempre inútil e sem sentido.

Mas a fome não espera e a fivela do cinto não suportava mais furos, muito menos a dona da pensão admitiria que eu atrasasse mais um mês de aluguel. Então, mais uma vez, para remediar a situação, eu tive que me meter com essa gente. Tive que vestir uma máscara de interessado e partir pro jogo sujo de sempre. Mais uma vez era preciso adiar os sonhos e cravar unhas e dentes naquela triste realidade.

No dia seguinte deixei de almoçar para comprar o jornal. Com o estômago roncando, sentei-me num banco de praça e abri aquele jornaleco. Não pude evitar o pensamento de que havia desperdiçado um prato feito naquela idiotice, porém eu não podia me dar ao luxo de desperdiçar também o que já havia desperdiçado. Afastei esta perigosa reflexão da mente e pensei um pouco mais adiante. Fui direto aos classificados.

E então descobri que se vende e se compra de tudo na face da terra. O comercialismo definitivamente dita as regras no mundo dos cretinos. É eletrodomestico, televisor, automóvel, barco, motocicleta, piano, terreno, imóvel, orgãos vitais e até mesmo mulheres, sobretudo mulheres. Sem falar nos mais diversos serviços que nos são oferecidos como verdadeiros milagres. Oferecem-nos o mundo e o fundo sempre por uma pechincha.

Mais uma vez tive que me controlar para não desistir, além do calor terrível o mundo se tornava inóspito por diversos motivos e o comercialismo era um deles. Porém na situação em que me encontrava não poderia exercer meu senso crítico, pois eu precisava comer e pagar o aluguel.

Encontrei um anúncio que me pareceu bom. Uma vaga para ajudante de tipografia. O salário não era lá grandes coisas, todavia, naquele momento seria o mais perto que eu poderia chegar da literatura. Circulei o anúncio e no dia seguinte bem cedo vesti minha melhor roupa, que para muitos poderia ser pano de chão, e fui até o local indicado.

O lugar não era muito longe dali, porém eu teria que pegar um ônibus se não quisesse chegar lá todo suado, pois o sol estava de rachar. Emboquei no primeiro ônibus, que por sinal estava lotado. Tinha tanta gente amontoada lá dentro que algumas pessoas se penduravam nas portas. Pensei que seria terrível partcipar daquilo todos os dias pro resto da minha vida e quase saltei pela janela do ônibus em movimento. Foi quando percebi que haviam pessoas que aparentemente estavam em condições muito piores que a minha. É bizarro este pensamento, mas às vezes a desgraça alheia conforta a nossa. Pensei que deveria me concentrar na minha própria miséria e esquecer a dos outros se quisesse sair dela. Se eu não o fizesse quem o faria por mim?

Saltei do coletivo bem perto da tipografia, que mais parecia uma oficina abandonada. Entrei no recinto e lá estava um homem magro, sentado olhando para alguns papéis, óculos no nariz, ele parceia nem ter notado a minha presença e continuou o que estava fazendo. Eu pigarriei e ele levantou os olhos com algum desdém por debaixo dos óculos na minha direção. Bom dia, eu disse, vim para a vaga de ajudante de tipógrafo. Ele manifestou indiferença ao que me respondeu: não posso pagar muito e o trabalho é duro. Tudo bem, eu respondi, desde que aprenda alguma profissão. Ele me perguntou: você tem alguma experiência na área? Eu disse que não, mas que tinha boa vontade e facilidade em aprender, além do mais estava interessado pois necessitava por demais daquele emprego. Ele fez mais algumas perguntas e no final perguntou se eu sabia ler. Como assim? perguntei. Ele disse num tom jocoso: oras filho, sabe diferenciar um A de um Z? Ó sim é claro, eu disse. Pois bem a vaga é sua, Shakespeare. Pode começar amanhã, tire o resto do dia para acertar sua documentação e ir ao médico. Você precisa de um atestado de sanidade mental e fisica. Eu pensei: Mas que porra é essa? Disse: Porque eu precisaria disso? Bem, filho, é para sabermos se você é louco ou não, se está apto para o serviço. Mas o senhor não pode ver com os próprios olhos que estou apto? Não filho, não sou psiquiatra. Mas é que uma consulta médica custa caro e... Bem filho é pegar ou largar.

Sai dali puto com aquilo, como é que pode ser preciso que um homem tenha que atestar a sanidade do outro, oras se um sujeito não é capaz de saber sozinho se é louco ou não, já demonstra um certo grau de loucura. Por essa lógica quem é que garante se o cara que vai atestar minha sanidade não seja ele mesmo louco. Seria preciso um que atestasse a sua antes e outro que atestasse a do outro e assim por diante até que ficasse provado que a humanidade inteira estava apta para habitar o gigantesco hospício que seria o mundo.

Mesmo assim eu precisava do emprego e tinha que me submeter àquilo se quisesse continuar respirando e me arrastando por ai. Rodei a cidade inteira atrás do tal atestado. Em todo consultório que eu perguntava era a mesma conversa. Teria que agendar uma consulta para um clínico geral que me encaminharia para um psiquiatra e... todos eram mais caros do que eu poderia pagar. Eu teria que trabalhar um mês inteiro sem receber para pagar aquele papel. Pensei ser meio estranho que as pessoas tenham que pagar para conseguirem um emprego, se elas justamente precisam do emprego para poder pagar o que quer que seja. Talvez fosse preciso que muitas pessoas como eu fossem mesmo miseráveis para que fosse possível que o mundo dos cretinos funcionasse a seu modo.

Voltei para a tipografia sem o maldito papel. Pensei que se demonstrasse o esforço e o interesse que havia despendido em conseguir o tal papel já seria o bastante para inspirar alguma compaixão ao tipógrafo, mas de fato eu estava enganado.

Fui à diversas clínicas, são todas muito caras e eu não tenho dinheiro. Pois vá até um hospital público, o governo disponibiliza médico de graça aos pobres. Mas a fila é enorme e eles dão prioridade às emergências, eles vão rir da minha cara e vou ficar meses na fila de espera. Bem garoto, é isso ou nada. Não pode trabalhar comigo sem o atestado. É assim que a banda toca e você terá de dançar conforme a música se quiser fazer parte do show. Tá bem, mas não há outra forma de conseguir esse maldito atestado? Bem, olha aqui menino, eu não sei porque, eu não devia mas vou te dar uma colher de chá. Olha, toma esse papel aqui, vá até este endereço, na porta do prédio haverá um cara vestindo uma placa de vende-se ouro, diga a ele que quer um anel de quinze quilates e ele te levará até o cara que te fará o atestado por quinze paus, mais barato que isso não dá. Não diga nada sobre mim. Lembre-se, aconteça o que acontecer, bico calado. Mas se o senhor sabe que o cara vai me vender o atestado sem ao menos me examinar por que diabos eu precisaria desse papel? Oras menino, logo se vê que você não entende nada mesmo de negócios. É um documento. Uma garantia para nós dois. Mas que garantia? Só se for a garantia de que vou ter que vir trabalhar a pé durante duas semanas. Olha jovem, você não saca nada mesmo. Um documento carimbado e assinado com o timbre do cartório vale mais do que a própria realidade. Se você conseguisse um atestado de óbito nessas condições, eu o daria por morto ainda que me entreguasse o documento em mãos, entende? Não! como eu poderia entender uma coisas dessas?! Bem, se estiver interessado no emprego é assim. Mas... Sem mais, é isso e pronto.

Saí dalí injuriado, aquele homem devia ser louco, mas eu não estava mesmo em condições de questionar, fui direto para o tal endereço no centro e chegando lá segui as instruções dadas pelo tipógrafo.

Disse ao tal cara vestido com a placa que desejava um anel ... ele me olhou de cima em baixo meio desconfiado e me perguntou: Quem te mandou aqui? Eu respondi: você sabe, eu não posso falar. No que ele me pediu para que o seguisse até o segundo andar, onde ficava o suposto consultório. Subimos por uma escada em caracol e chegamos até a porta da sala do suposto médico. O prédio parecia estar abandonado. O cara me deixou na porta da sala, me pediu que aguardasse ali em silêncio e saiu. Oras, não havia ninguém por ali, será que ele pensou que eu iria conversar sozinho, às vezes faço isso mas nessas ocasiões costumo ser bem silencioso. Esperei uns quinze minutos até que a porta se abrisse e um homem que não se parecia nada com um médico me pedisse que entrasse. Sente-se, pois não? Quero um anel... antes que eu terminasse a frase ele pegou uns papéis na gaveta e começou a rabiscá-los a torto e a direito. Sem olhar para mim me fez algumas perguntas: O senhor tem alguma doença grave? Não. Tem algum vício? fumo cigarros. Ora isso não é vício, ele respondeu sorrindo. Você é louco? Se sou ou não, o senhor está aqui para responder a essa pergunta! Nada disso, está redondamente enganado, estou aqui para assinar esse papel e dar uma carimbada, esse é o meu trabalho. Ainda que você fosse mesmo louco com essa assinatura e esse carimbo estaria apto para governar o país. E soltou uma gargalhada tenebrosa. Vamos, você é ou não? Desconfio que estou ficando de uns dias para cá, respondi. Bem filho, um pouco de loucura é sempre bom. Assinou o papel, carimbou e o empurrou arrastando-o pela mesa na minha direção. São quinze pilas, dinheiro vivo, de preferência uma nota de dez e uma de cinco. Peguei o papel nervosamente, atirei o dinheiro em cima da mesa e dei o fora dali.

Bem, já era tarde, no outro dia eu iria ter com o tal homem na tipografia, munido do maldito atestado. Só fiquei imaginando o que seria desta vez...

No dia seguinte tive que ir a pé até a tipografia, debaixo de um sol escaldante, caminhei durante quarenta minutos dentro daquele forno aceso que era aquela velha cidade suja. Lá chegando pude notar que a porta estava fechada e que havia uma placa de aviso com letras miúdas. Achei estranho e me aproximei para ler o que estava escrito: Por motivo de força maior hoje não posso atender, em caso de emergência arrombe a porta. Apesar de estar puto com aquela estória, não pude conter o riso ao ler aquilo. O cara devia ser mesmo louco, onde fui me meter, eu pensei. Balancei a cabeça, tirei o atestado do bolso e pensei: continuo desempregado e quinze paus mais pobre. Rasguei o papel em mil pedaços e os atirei no passeio público, pensando, tomara que entupa os boeiros e encha essa cidade de merda de uma vez.

Fui para casa e fiquei pensando naquilo (Andava pensando demais pro meu tamanho). Pensei que daria uma boa estória. Peguei papel e caneta, sentei-me e comecei a escrever mais ou menos a realidade sobre o que havia sucedido. A coisa fluiu bem até emperrar no final. Percebi que o desfecho não fazia nenhum sentido e decidi que voltaria à tipografia no outro dia para esclarecer o caso.

No outro dia bati de novo até lá, mais uma vez caminhando no inferno daquela cidade. Aquele verão parecia eterno. Um aviso interminável de um apocalipse próximo.

Dessa vez a porta estava aberta e o homem estava lá sentado analisando seus papéis como no primeiro dia.

- Ei cara, escuta aqui, você pensa que eu sou trouxa ou você é mesmo um doido varrido?
- Nem uma coisa nem outra, porque?
-Isso aqui é mesmo uma tipografia? você é mesmo um tipógrafo?
- Claro que não, você está vendo por aqui alguma prensa ou alguma maquinaria que faça disso uma tipografia? isso é só uma oficina abandonada, pelo jeito você nem sabe o que é uma tipografia. E eu não sou tipógrafo nem aqui nem na China.
- Oras, então porque colocou aquele anúncio?
-Sim eu coloquei, mas estou arrependido, vou mandar tirar hoje mesmo aquela merda. Vocês compram o jornal, lêem os classificados, encontram o anúncio, vêem até aqui e ainda eu é que sou louco?
- Mas porque diabos colocou o anúncio? Se você não é tipógrafo, o que é?
- Sou um terapeuta literário, devolvo a inspiração aos escritores, mas pelo jeito estou vendo que você é só um aspirante, não posso devolver a uma pessoa algo que ela nunca teve. Só me aparecem amadores por aqui...

Mais uma vez apesar de querer estrangular aquele cara não pude evitar o riso.

-Tá bom então, você é um terapeuta literário que devolve a inspiração aos escritores e como você pensa que faz isso?
-Eu simplesmente boto o anúncio, eles vêem até aqui e eu os oriento como posso. Dou a eles a chance de descobrirem um motivo para escrever. Executo neles uma espécie de desbloqueio criativo.
- Você é um falsário isso sim!
-Olha filho, você me parece um rapaz inteligente e bem capaz de compreender o que vou lhe dizer. Eu sou um velhote meio burro, que mal sabe escrever, mas tenho tino pros negócios, tenho visão e experiência de vida o bastante para orientar quem não sabe o que quer. Esse é um dom divino, tenho que usá-lo a meu favor, concorda?
- Mas isso é enganar as pessoas!
- Não senhor, meu negócio é limpeza. Eu dou às pessoas o que elas procuram e elas me gratificam como podem. Não obrigo ninguém a vir até aqui.
-Tá mas e a estória do atestado, que merda é essa?
- Bem, como você pôde constatar eu não cobro pela consulta e um homem na minha idade precisa livrar o seu de alguma forma.
- Então você está de conxavo com aqueles falsários?
- Eu prefiro dizer isso em outros termos. Digamos que naquele prédio funciona uma extensão do meu negócio e que aqueles camaradas são meus sócios.
-Voce é um grandessíssimo filho da puta, isso sim!
- Bem filho, minha mãe nunca foi puta, ela era cafetina. Apenas herdei dela o talento pros negócios.
- Eu não sou nenhum escritor querendo de volta sua inspiração, sou um miserável desempregado que por desespero e fome se meteu numa roubada, quero meu dinheiro de volta.
- Bem filho, infelizmente não trabalhamos assim por aqui, mas se você está descontente com nossos serviços, simplesmente me entregue o que você escreveu e eu te darei um trabalhinho na firma.
- Não quero trabalhar pra você seu velho agiota. Sou pobre mas sou honesto, não quero viver de enganar as pessoas necessitadas.
- Tá bem, então apenas me entregue o que já escreveu e eu te devolvo os teus quinze paus.
- Mas como pode ter tanta certeza assim de que eu escrevi algo?
-É batata filho, o metodo com que trabalho é infalível. Se o cara for escritor ele vai escrever.
- Tá, eu confesso que escrevi algo sobre isso, mas a estória ficou sem um desfecho e...
- Ah, sim, eu já sabia, por isso voltou, você quer um final para o seu conto, porque não disse antes...
- Eu vim por curiosidade, mas mais pelo dinheiro.
-Quer um final ou o dinheiro?
- E você seria capaz de me dar um final?
- sim, claro, você deve saber mais do que eu de que uma boa estória deve acabar bem. Deve no mínimo ter um final impactante, surpreendente e satisfatório.
- Sim, talvez...
-Mas um grâ finale custa caro.
-Oras, eu sabia, depois de tudo isso o sovina ainda quer levar as minhas calças!
- Não, mas talvez somente o recheio...
- Vá te fuder seu velho tarado!
- É o preço da glória! risos
- Olha aqui, o senhor que vá tomar no seu rabo, o leitor que me perdoe, mas eu não dou mesmo para escritor, adeus!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

re-impressões

transcorre desta viagem sem volta a palavra verde esmeralda derrubando a solidão fantoche escolhida que não avalia a hora de explodir. não faz censuras ao pensamento. calada urinava sem empenho nas escadas, sobre fábricas de ilusões miúdas, cravada em armaduras de gigantescas pedras orgulhosas. mil vezes papéis rasgados. meu endereço marcado na sombra. tudo se acabando. indifenças desabafos e permaneço a invadir, descobrir e comer. não sabemos dividir. acumulamos dívidas. paraísos enroscam-me narizes nuvens névoas infernos. o que me espera? fosforescente e secreto. incoerência mágica e trágica. terrivelmente penso em títulos, ações, escravos e senhores. desejos escuros deixam minha tristeza sem história. toda noite não escrevo livros para as prateleiras. nem com lágrimas e moléstias despertamos o que escorre dentro da gente. monumentos de perversos caminhos. vivemos tão bobos e estupefatos. a pureza. conseguiremos resgatar com tanta maldade? chegaremos tantas vezes como nada. terá esse nome desacreditado a idade do mundo. nenhuma insurreição desnecessária. o silêncio apenas tem direito sobre o esquecimento. o mecanismo da alegria. piedade e destruição. quando tremeu vitoriosa e apodreceu maltratada a felicidade. falaremos disso algum dia. garrafas, sonhos e nada disto. muito bem, temos pudores para que ninguém nos ouça, mas vai acontecer. não haveria núpcias. inútil esperança. o que não fizemos cada um de nossas próprias vidas. tempestades de nossa juventude. o entardecer. tarde demais. com melancólicos chutes nas estrelas. com desdém. tão generoso e correto como a morte agonizante consola o menosprezo e a fúria. divertindo-se. as ruas. o amor. as eras. dirgerindo cabeças profundas e mal vestidas. ásperas. sórdidas nutridas de seu tempo. passáros embalsamados a sua maneira. serventes para moedas. não há memória e ternura. continuo a anotar caminhando na esteira da morte. respondo à escuridão. claro. continua a terra. austera. cárcere elegante crepúsculo ou cama. para repousar e ouvir dentro dos olhos o canto selvagem e seguem súbitos amanheceres amarelos. dormindo renegado em travesseiro de espinhos. trazia dentro o vazio e os traidores odiaram esse charme. porque fomos enfeitados de convencidos colaboradores de inimigos. despeito sem escapatória. esqueçamos o desprezo. quando escapo morrendo de medo de mim mesmo. não respeito mais ninguém. como se enganam delicadamente. interrompem a natureza e alimentam o ódio latente nas folhas de metal que encapam a alma. o pior de mim à mostra. sem espelho. mudo de trajes. continuo habitando minha miséria. a substância do mundo. o país cheio de cicatrizes das velhas mãos enrrugadas. o peso da inveja e do desejo. sempre o desejo. o mundo nas costas. deixo tudo isso pra trás.

num piscar de olhos. o estilhaçar. o espanto. o arroubo. tinhamos sido meros ensaios. comoções. cabeças decepadas. aquelas pessoas talhadas no tempo. pré biblicas. guerras. funerais. da poltrona assistindo filmes. apaga o cigarro. com tantas viagens macabras olhando para as luzes. naquele instante uma pedra esmagava a cabeça de uma criança. a estrutura econômica. o apocalipse. conspiração. a criança poderia ser seu filho. era sem saber. céus conturbados. engrenagens gemeram nos muitos deveres. as mãos tateando o progresso lento. o fósforo apagou. esperem por mim. não consigo ver nada. porque diabos é assim? será que estamos num esgoto descomunal? todas as fotografias apresentam defeitos. tudo é um risco que se corre. o que há de esquisito nessas lembranças? o futuro dorme. o silêncio a procura da origem da prece estranha. virando-se para contemplar as próprias origens. sem ver ninguém. ela riu de si mesma.você mesmo deve estar pensando tais coisas. tem toda razão para enlouquecer. espero que sim, mas que diabo deu em você?

depois de um longo silêncio ela tornou a abrir os olhos repulsivos. eu poderia me recordar de ouvir sempre dizerem essas palavras milhões de vezes para enterrar seus corpos. montanhas completamente sepultadas sucessivamente. algo estranho é um pardal morto cantar tão lindamente. chuva de ossos. testemunhas. palavras ocas. esqueleto sorridente. exploradores. recém nascidos. chegou esta manhã sobretudo um porém. se prepara a árvore para mudar. a fruta futura apodrecendo antes de estar madura. os grãos duros dos povos queimados. cegos. mancos. paralíticos. ninguém advinha a vida. antes de se arrependerem desfalecem as faces. cansadas. passageiros industriosos de antigas naves dos tempos de fogo. suavizando sua poesia repousa a vida inquieta no ventre do abismo. na casa do transitório. estende-se o passo. chegará a mortificar a paz nos calabouços sagrados. de sapatos celebrar os tapetes definitivos da verdade que soluça o último vestígio de encanto e outras coisas de tantas bobagens.

seguindo por outro caminho ele olhou para a mãe. os macacos estavam obviamente indiferentes a tais laços. procurando escapar estavam exibindo-se dentro de uma jaula. olhos amarelos. caminha mecanicamente para frente. não gosto nada do que está acontecendo. melhor seria calar tudo isso. você e suas crendices. uma importância terrível. nervosamente a porta se abre. esperar até quando? pegou a máquina quebrada e levantou-se. dizem que foi uma dose excessiva até mesmo para ele. a mãe substituta começou a uivar como se fosse a própria mãe. sentindo calafrios na espinha. talvez você mesma possa me ajudar. não tenho certeza. há algo de errado? a súbita explosão dentro dele provocou um angustiante silêncio. não me sinto disposto para viajar hoje. mas a viagem não está cancelada, apenas adiada. desespero ao invés de desejo. calma, tolerância. a promessa de perfeição para cuidar da realidade está sendo quebrada. afinal de contas tome cuidado com o que diz.

é um sistema. você engoliu. sem divisões rígidas entre as frases. manteve sagrado o dia e a pureza. não adorou ídolos. noites de ideias em linhas tortas. apagar o doce das pessoas, sua tarefa será recompensada. atordoa os receptores. além disso o que for amargo será eterno. a palavra apareceu através de impulsos nervosos. e agora não tem mais volta. foram escritas com sangue e fezes. suas manchas permanecerão em nosso dna. perdem segundos preciosos nestas páginas. insurgentes ligações fatais. quanto voce pagaria por isso? corações e mentes dilacerados. estamos para lá do meio. a desconfiança reinou. aguardem a primavera. vamos voltar a falar de flores. sendo que cada meio quilo de tulipa amarela custa caro. as variedades mais raras das ações que deram mais retorno. aconteceu na história da jardinagem e da literatura. quem tinha vendido esses papéis? essas flores caíram e a coisa começou a ficar fictícia. funcionou? era novidade ali? então eles ficam excitados com as condições ideais. caçadores de tendências adversas. é um caminho sem volta tudo o que fazemos. é sobre isso que escrevemos. misturando o que se aprende com o que se esquece. uma experência malfadada. leia o livro. beba. coma. fôda com a vida. engraxe a maior máquina copiadora de todos os tempos. afinal era isso ou a obscuridade. é odiavél admitir. será real? por enquanto acredita quem puder. é uma tarefa nobre morrer. é feita de luz. mas falta uma prova. quando a viagem termina. a vida se mistura ao ar. roda o mundo inteiro e pula fora. o que eles querem comigo? o que esperam de mim? que seja como vocês? que eu seja como eles? que eu entre no jogo? que eu escolha um lado? que eu tome partido?

enquanto você lê ele é muito criticado por isso. por não ter um motivo, por não ter nada que o valha. não estamos sugerindo explorar os incautos ou falar em nome deles. o difícil seria alcançar o efeito máximo. sem se prender a rótulos ou nomes. em busca do fortalecimento das conexões faça sua prórpia coisa. afinal você corre pra que? é um rato de laboratório? uma cobaia nervosa? nada disso importa. é coisa da nossa cabeça. quando perdê-la finalmente irá entender. quando o assunto está em suas mãos deve-se ultrapassar a linha que separa a coisa da outra mesma coisa inversa. livrem-se da educação.

quase sensacionalismo pedante. obviamente banal. era só isso... e agora?



Justificar

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

anti-herói à moda antiga

era uma vez um cara. um ser humano mediocre como a maioria. um cara que antes de pasmar de ser gente encasquetou que seria escritor. e portanto, foi. foi sendo. foi um, foi dois, foi vários. tudo o que um cara pensa ser, ele é, tudo o que se passa na sua cuca, existe e acontece de verdade. o pensamento alcança até onde alcança o pensamento. seu limite é ser ilimitado. não se pode pensar no que não existe. pois automaticamente essa coisa existiria. o pensamento existe. pensamento é puro ato. é puro ato reflexivo - existo, logo penso. reconhecer a própria existência é o primeiro passo para percebermos que pensamos porque existimos antes., porra! a linguagem enfeitiça o pensamento. reconhecer-se pelos próprios sentidos é o modo como nosso organismo opera. quem duvidar disto; quem não souber se está acordado ou sonhando, que enfie uma vela acesa no cú e vai logo saber da onde vem o pensamento.


nada de inspiração divina, mágica, psicografia ou genialidade. porém após uma breve reflexão a respeito de todas as atividades desenvolvidas pelo homem no decorrer da história da humanidade, não sem analisar friamente as suas implicações na vida dos indivíduos que as exercem , ele que não era bobo nem nada, sem pensar duas vezes optou por enfileirar palavras , pois enxergou nas possiblidades que a atividade literária lhe oferecia, tanto em termos de liberdade moral, quanto em termos de necessidade do espírito, uma oportunidade única de revolucionar-se a si mesmo e quem sabe emprestar um pouco disso para mais alguém.


ainda que não se tratasse de um talento nato e não fosse dotado de muito estudo, o rapaz sabia que com um pouco de treino aquilo seria barbada. ele não era de fazer careta pra cego. já havia trabalhado em oficina, lava-rápido, apanhado laranja, pintado parede, carregado caixa. entregado cartas, etc. qualquer merda dessas. a literatura é uma necesidade como qualquer outra. precisamos tanto de um poema quanto de uma casa. precisamos tanto de um poeta quanto precisamos de um catador de lixo. ambos são necessários. literatura não é luxo como gostam de pensar alguns que se julgam escolhidos. todo mundo é poeta, mas só que a maioria não sabe que é. qualquer um é capaz de qualquer coisa. desde que saiba disto. era só romper o hímem. era só observar pra onde soprava o vento. ver a posição correta das estrelas, sentir a aguá fluir por tudo. respirar um pouco e seguir as pistas deixadas por outros e o rastro do coelho branco. era sentir aquilo e aplicar o golpe certeiro. e numa única paulada parar a beleza e guardá-la no tempo infinito.

e quando a eletricidade na ponta do nariz lhe der um choque, saberá contar histórias antigas de tempos remotos e imemorias. inventará tantos deuses cheios de tantos poderes e piedade. fará comparações requintadas entre o homem moderno e o chipanzé. com o tempo a repetição faz a diferença. e de tanto cutucar a ferida ele aprende. macaco vê, macaco faz.

aprende o que os outros bichos já sabem sem saber que sabem.

em suas obras poderemos notar um entusiasmo exagerado. que em meio a reflexões absurdas ,ele justificará dizendo que em alguns casos o exagero é fundamental. inevitavelmente repetirá muitas vezes as mesmas palavras. palavras ditas e repetidas exaustivamente, que de tão usadas se desgastam e perdem completamente o sentido e o significado, disfigurando a figura que deviam representar. as palavras utilizadas assim não dizem quase nada. ou dizem tanta coisa, que no fim termina dando no mesmo. acabam por perder a sua razão de ser. o poder! o poder mudará de mãos. ele não deixará de existir. o poder poder poder poder. o poder da palavra? o poder da palavra poder? séculos e séculos de mãos. grandes mãos que mais parecem tentáculos.

este é certamente um século de mãos.

mais tarde um pouco mais calejado. ele envereda do pessímismo instigado para o otimismo mistico. nesse periodo conturbado terá muitas alucinações. seu estilo sofrerá sérias afetações escreverá sobre os rumos da humanidade. o arranjo do universo. o progresso. o amor. a virtude. o heroísmo. enfim, o tipo de coisa que os loucos conversam nos hospícios.

viajará para a grécia a fim de visitar as ruínas de antigos templos. para incorporar as sombras da velha cultura de seus antepassados. e aprender no velho mundo outras línguas e edificar também aqui suas torres de babel, sob as sombras das gerações de semideuses e mestres escribas alados.

e então provará de todos os licores e de todos os manjares. virando noites de eternas putarias . milênios de orgia e fé. então adornará sua poesia com os cacos de um vaso vermelho da china. e assim como nóe se entupirá de vinho e sairá andando pelado pelo país asteando sua bandeira.

acabará preso pela policia do pensamento e passará os melhores anos de sua vida encarcerado numa masmorra da idade média. poderiamos mesmo pensar que isso seria positivo para sua arte pois aquela sua cruz tão pesada lhe renderia histórias mirabolantes dignas de serem incorporadas ao rol das tragédias clássicas e seus utilissímos ensinamentos. todavia, contrariando tais espectativas, naquele tempo sua produção foi praticamente nula.

ao livrar-se do alcoolismo e da perturbação mental, desempregado, aceita todo tipo de oferta. chega mesmo a escrever horoscopo para os jornais. se prostitui escrevendo artigos sobre filosofia, sociologia, política, esportes e culinária.

depois de pensar muitas vezes em abandonar tudo e fugir para o deserto, eis que um raio fulminate vindo de toda parte acerta bem na sua testa

e sua última fase é realista. nessa fase ele assume que é heteroxexual e que tudo não passou de um tremendo engano. o mundo não era redondo, não exatamente. o homem nunca foi a lua, no máximo pisou no acre. confessou que o barulho de ossos quebrando era o mesmo que se ouve quando se mastiga um drops. e que ninguém poderia duvidar que um charuto não é um cachimbo.

ele raspa seus últimos vestígios e dispara seus cartuchos de uma vez. manda imprimir uma porrada de panfletos a serem distribuídos para as pessoas nas ruas. serviriam para elas saberem que ele estava vivo e elas também. que tudo estava vivo. e que tudo está morrendo. e que os bons tempos nunca chegaram. e que a violência é sempre justa se for ao contrário. mas no panfleto só havia os dizeres: ACREDITEM, SOU INOCENTE! a culpa é de papai.

uma vida por uma obra. uma vida inteira por uma única frase- pensou.

e eis que tudo não passa de um peido!

enquanto a cicuta faz efeito pensa se não esqueceu de nada... enfim, se de fato esqueceu não poderemos saber, pois esse nunca mais foi visto por ai. e era uma vez um escritor...




suas obras foram queimadas pelos parentes e amigos mais próximos, para que não manchassem seu brilhantismo, o seu ímpeto e sua glória . e que fosse lembrado pela história apenas como um homem célebre, que pensava ser...










quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

um tasco da boa e velha subliteratura

eu havia me tornado um sentimentalista. velho, solitário e sentimentalista. logo eu que passei a vida alimentando sonhos que viraram pesadelos. perseguindo a brutalidade poética de um Rimbaud. a ternura áspera de um Baudelaire, fui dar num velhote pornográfico, sentimentalista & pornográfico.

ao menos na juventude podia me dar ao luxo de cometer extravagâncias sem limites. e viver um cômodo adiamento constante, pois já tinha traçado o plano imaginário de minha glória e sabia que um dia iria botá-lo em prática. só essa ideia já bastava, eu confiava em mim. mas o tempo foi passando e esse método de vida que havia adotado não poderia dar em outra coisa. é certo que fracassei. durante anos levando uma vida de merda. sem nenhum controle da situação. sem fazer nada por mim mesmo. sendo levado pela maré do tempo fui dar na praia do esquecimento. e tornei-me um velho punheteiro, sentimentalista e punheteiro.

há essa altura do campeonato eu não podia mais vacilar. era tudo ou nada. quer dizer, era o que me restava ou nada, pois já não me encontrava na condição de querer tudo e as opções minguavam rapidamente, pois agora a cada segundo se passava um ano. eu tinha 52 e estava desempregado, a mulher com quem fui casado durante 10 anos estava me processando, minha amante com quem eu gastara todo o meu fundo de garantia havia me trocado por seu professor de ginástica. eu estava com a saúde comprometida por causa do cigarro e da bebida. uma barriga enorme que não me deixava ver meu pinto. o alguel atrasado. a frustração da vida inteira. dívida no banco. a juventude que não volta. um maldito dente doendo pra cacete, todos os livros que nunca li. os filmes que não vi. as viagens que adiei. as mulheres que fodi. e as que me foderam. os amigos que nunca mais vi. a sombra dos meus pais, que deus os tenha. a própria sombra de deus me perturbando o tempo todo. as mesmas dúvidas da infância. todos os traumas. as oportunidades desperdiçadas. os gols perdidos. os estudos que não comecei. e os que não terminei. não aprender a tocar piano. a dor nas costas, a pressão baixa. os cabelos brancos. a pele enrrugada. os olhos lacrimejantes. o folego curto. o medo da morte. a vontade de morrer logo. a poesia. a política. a arte. a sacanagem. o desperdício. o vício. todo esse entulho que entupia minha cabeça e não me deixava fluir.

minha única alternativa era salvar alguma coisa nesse lixo que por muito tempo eu chamei de vida. o que me restava era escrever toda essa merda que eu havia acumulado durante todos esses anos. sim. eu já me envergonhava de dizer isso a mim mesmo, mas eu pensanva em ganhar a vida escrevendo. só assim, imaginava, poderia recuperar alguma dignidade em minha insignificante existência.

mas de fato eu já não podia usar o método da juventude. já estava mais do que provado que não funcionava. eu não havia escrito nada que preste. eu já sabia que não era um gênio e que era preguiçoso pra cacete. então eu deveria ser sincero ao menos comigo mesmo, se quisesse alcançar o sucesso em qualquer coisa que não fosse pegar nas prateleiras uma pilha de remédios .

oras, pensei comigo, eu tive uma subvida só posso escrever uma subliteratura. a mediocridade também deve ser mostrada como fato real. alguém deve revelá-la de um modo mais descente. não. aos 49 do segundo tempo não posso mais desejar ser outra coisa senão aquilo que sou. um velho sentimentalista e pornográfico. deve haver alguma arte nisso. e se não houver não importa desde que comprem minhas estórias por um preço razoável, tudo bem, eu fico satisfeito.

há uma em especial que não sai da minha surrada memória afetiva. portanto, penso ser justo compartilhá-la com todos. se alguém bater uma lendo isto não terá sido totalmente em vão sujar o mundo com mais tinta, papel & porra.

eu devia ter uns vinte e poucos anos e estava no auge da minha potencialidade física e mental. naquele tempo eu me sentia imortal e por isso estava pouco me fudendo pra qualquer coisa.
com o tempo e o vento a meu favor, me sentia confiante e pronto para enfiar o pau no primeiro buraco que aparecesse. e nessa época a vida era um queijo suiço.
nesse embalo, numa noite louca de bebedeira, tirei a sorte grande. encontrei num desses bares da vida uma apetitosa ninfeta que resolveu se engraçar comigo. eu logo pensei - é treta, tudo o que vem assim muito fácil é treta. mas ela conseguiu provocar o meu orgulho- naquele tempo eu ainda tinha isso- e deixar o meu pau duro como um ferro. não pensei muito. saimos daquela espelunca e fomos para o seu quarto, não muito longe dali.

subimos a escadaria e entramos no quarto. com a luz acesa, começamos a nos beijar doidamente. eu estava meio bêbado. ela também. tiramos a roupa enquanto engoliamos a língua um do outro. eu lambia sua boca, seu pescoço, seus peitinhos durinhos. sua pele branquinha e se eriçavam os singelos pêlos descoloridos da barriga. eu me masturbava pedindo pra ela me mostrar a bunda. ela me mostrava e arrebitava e com uma das mãos arreganhava o cuzinho e a buceta pra mim. de repente ela se abaixou e começou a chupar lindamente. me pedindo pra gozar em sua boca. goza pra mim- ela dizia, com uma vozinha manhosa. aquilo me deixava louco, eu não pensava em mais nada. a não ser em botá-la de quatro e meter em seu rabo. ela deixou, mas não de quatro, por que dói- ela disse. e eu disse está bem. virei ela de frente e olhando pros seus olhos abri suas pernas e as virei pra cima, segurei seus pés juntos com uma das mãos e com a outra segurei o pau para enfiá-lo naquele botão de rosa. levei o pau até perto da sua cara e ela cuspiu na cabeça. me afastei novamente e enfiei devagar em seu cu apertado. foi entrando e ela gemendo e fazendo cara de dor. dava gritinhos desafinados e parecia que ia chorar de prazer. me pau latejava naquele velho jogo do entra e sai. enquanto ela estimulava o clitoris com seus dedos finos(unhas vermelhas). ela lambia os dedos e enfiava nela mesma. eu achava aquilo um máximo. quase morria de tesão.
de repente ela me pediu pra sentar em cima. queria fuder a buceta. vem- ela disse- deixe eu ir por cima, assim... eu me virei, ela passou a perna por cima de mim e deu uma arrebitada na bundinha e com uma das mãos enfiou meu caralho bem gostoso. sentou devagar e foi aumentando o ritmo. pulava e sentava de frente. depois virava de costas e eu apertava sua bunda com força. apertava os mamilos até ela gritar. suávamos. ela se virou de frente novamente e se deitou. vem ela disse. e eu fui por cima dela e comecei a beijá-la na boca. com uma das mãos acariciava seu peito e com a outra colocava o pau em sua cona melada. ela se derretia toda. e pedia mais. passei uma das mãos por de trás das suas costas e fui apalpando o seu reguinho até descer na porta do cú. eu enfiava o pinto e ela fazia força com os quadris para esmagá-lo. eu sentia que ia estourar. ela me pedia- enfia o dedo no meu cú. enfia o dedo no meu cuzinho enquanto mete. e eu enfiava tudo. pinto na buceta e dedo no cu. e ela adorava , gemia e estremecia o corpo todo. eu a tinha ali, inteira nos braços, nas mãos, no dedo e no pinto. ela gritou eu vou gozar eu vou gozar enfia mais, enfia tudo. soquei o pau e o dedo até o fim. ela gritou e começou a sorrir sem parar. eu podia sentir com o pinto através de uma pele fina e interna entre a buceta e o cu, o meu dedo enfiado . essa sensação me fez perder o controle e soltar um jato de porra dentro dela. nesse instante sua buceta pegou fogo e ela deu um gritinho estridente. caímos um em cima um do outro ofegantes e deixamos dentro até adormecermos.

muitos anos se passaram e eu ainda não acordei.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

carta para ninguém

não percebam isso. façam vista grossa. façam de conta que nada sucede. que não é nada com vocês. desprezem totalmente oque aqui se faz expresso. não repare nesse portugueis rebelde que é brasileiro e teima em se aproximar da fala simples e direta. sem disse me disse. ignorem tudo isso. voces chefes dos bacanais acadêmicos. especialistas em punhetagem intelectual e todo o seu bláblábla´artístico-teórico-sermão-mantra-hipnótico-traumatizante-caduco-dos-infernos
exalando insegurança e pretensão profética. vocês dessas seitas milagrosas e ongs. generosas. vocês vereadores das cidadelas. prefeitos dos pequenos condados urbanos. comandantes das metropoles feudais. diretores gerais das sessões de vendas. donos das nações. acionistas.doutores. banqueiros. empresários de cara gorda. gerentes. agiotas. surpevisores.
técnicos. encarregados. vocês que também são explorados mas não são da classe dos miseráveis, vocês que ocupam seus cargos descentes e que manifestam apreço por este modo cretino de viver. espero mesmo que não prestem atenção nem percam seu valioso tempo com isso.
estas palavras têm um endereço certo. seu alvo é a vossa indiferença de sempre. voces que se ocultam atrás dessa imundice com a qual lidam. diluídos em tal latrina. a vós que tens a fome de um lobo furioso, mas que no fundo não passam de porcos cevados prontos para o abate. velhos suínos sovinas bebedores de lavagem e produtores de merda. que essas palavras não atinjam as vossas cabeças ocas.
o motivo desse experimento fadado ao fracasso - repetindo a velha técnica dos moderninhos que não sabiam fazer outra coisa, pasmos diante do acúmulo de produção humana- é confirmar que ninguém nos ouve.
sobretudo voces que vendem o chão dos próprios pé paralíticos. a vocês nada deverá afetar ou comover, muito menos palavras. a todos vocês eu repito o que tenho a dizer: ninguém será poupado. portanto, não leiam.
o que os bota medo? oquê tem significado para voces mesmos as vossas vidas? voces são capazes de pensar na merda que fizeram? voces tem coragem de avaliar vossas condutas?
não, é melhor não, pra quê haveriam de fazer isso? melhor não levar essa curiosidade a cabo. isso não é para vocês. definitivamente, não.
voces dominadores de corpos. fabricantes de cérebros e comerciantes de almas. não disperdiçarei essa merda com voces, pois até a merda é mais agradável do que vosso cheiro.
voces estão com medo? com medo da merda que fizeram? com medo de afundar nela para sempre? querem remediar agora? querem mudar pois temem a si mesmos, pois estão com medo de não conseguir juntar toda a tralha que acumularam? cagalhoes! coroneis das minusculas províncias. imperadores do reino da banalidade. proprietários das máquinas de fazer máquinas.
saiam dessas palavras, se esquivem todos. saiam através delas. tapem seus ouvidos e fechem os olhos. não percebam as palavras silenciosas penetrando em seus pesadelos. vocês amigos da boa vida. carrascos sem identidade. voces da corte dos espertos. voces inoscentes nocivos, cooptados. voces que não passam fome e tem o que vestir mas são explorados passivamente. vocês que sabem ler mas não entendem o que está escrito. a todos vocês, ninguém em sã consciência. bilhoes de almas a serviço do monopólio do lucro e do progresso científico desenfreado para o bem da santa fé reinante e pela ordem vigiada e harmônia universal dos infernos.
a todos que pensam que podem pagar um preço razoável por isso. àqueles que aguardam com esperança uma solução que brote do nada. e também aos que se prestam a analisar de fora essa porra toda. a todos aqui citados e aos seus comparsas e cumplices invisíveis ofereço a própria miséria que plantaram e que peguem essas palavras as virem do avesso entenda como quiserem e as metam no pior lugar que puderem imaginar.

a balada de um homem invisível

um homem pálido quase transparente, ali jogado, entre outras coisas que existem, naquele em que as coisas são tempestade e frio. pelo fato de ser um animal cujo objetivo é sentir prazer. aquele que faz bem aos fabricantes e morre sempre na lua nova. nele há constantemente geração e corrupção. ele que acabará por chegar ao presente.

deverá começar o seu avanço. com a percepção de que da vida convém partir do que é bom. ter apenas um conhecimento primário de cada coisa. ser fulano ou ciclano. tanto faz. mas ser sempre permitido que faça algum acréscimo a sua própria natureza e à natureza propriamente dita. nem tudo isso se expressa.

tempo. movimento. lugar. sua apredizagem o trouxe a este caminho. ao seu alcance vários sinais.
nada que possa pegar com as mãos e manipular, mas num certo sentido está ao seu alcance e a sua disposição.

para ele foi um começo. um início de qualquer coisa. e assim, visto que começou haverá de chegar a um fim. e cada coisa será o que disser. e cada coisa será o que é. um manto. um tal composto de animalidade. fagulhas de vida. indefiníveis.

nada terá definição. arruaças, clamores a própria ânsia de ir ao fim do mundo. suas ilustres damas. o ciúmes de tudo. sua constante cata de fugitivos, a execução de suas manias, um estalo de dedos. cada ritual. amplificações, metáforas, como um grito que viesse abafado e de repente explodisse.

quase duas páginas de coisas vivas. com as mãos e os pé cheios de memórias e saudades. olhos quentes na realidade. despindo-se lentamente e seguindo sua historia que adormece e cai no esquecimento, mas às vezes desperta e brinca com a imaginação sem ela dar por isso.

assim escrevia ele no papel sem nenhum interesse de restituir a paz. com um único fim de dizer ele também as duras penas do seu próprio inferno.

suicídio do discurso

ao deixar-se levar pelas palavras transformou-se em um humilde subalterno das idéias sedutoras. o que não era uma pequena vantagem. mas sentia que devia acabar logo com aquela farsa, pois não se adaptava facilmente àqueles discursos fervorosos. sim. decidiu que seria mais saudável acabar logo com aquela farsa e desmascarar aquele espírito mesquinho, latente por de trás daqueles atos heróicos & magníficos.

decidiu que seria melhor observar as manifestações isoladas. e calou-se. o simples não-ato tornou-se uma complexa e sutil ação. nesse instante o silêncio ficou mais acentuado e com um franzir de sombrancelhas o murmúrio elevou-se. inclinou-se para ouvir. teve dificuldade em distinguir alguma exceção. naquele momento pesado e grosseiro deu uma olhada rápida. sabia que não era livre. inutilmente fez um gesto no vazio.

e o diálogo telepático sofreu interferências magnéticas

fará comigo o que lhe aprouver. nada o impede de ir embora, álem da cólera. seus discursos são mesmo inúteis diante dos fatos. e não apresenta concordância com suas ações. palavras insolentes, estas.

recuaram ligeiramente.

nem todo mundo pensa como o senhor. estou esperando...parou de repente. e até sorriu. o senhor não acredita em mim?

em poucas palavras mantinha sempre um ligeiro atraso.

não se preocupe com esse mal-estar.

apresentava uma expressão severa.

o rosto dela bem de perto. já havia visto o bastante e já havia perdido muito tempo.

não vou esperar mais. mas seu silêncio devia ser algo estranho. repugnante. inquieto

este não é o melhor dos lugares, mesmo no caso mais favorável. aliás pelo fato de que podia se fiar tão pouco em suas próprias observações.

porém o senhor certamente refletiu em tudo. não é bom deixar segredos nas mãos de pessoas desse gênero. veja o senhor mesmo o que deve fazer para confirmar a si suas próprias idéias. é pelo menos o que devo dizer. ainda que não faça nenhum sentido. não posso evitar as generalidades.

um silêncio cortante


as palavras mais tocantes não poderiam sustentar o peso do seu corpo. a partir de agora qualquer motivo valerá a pena. podes me conceder um pouco de tempo?

não se iluda. essa possibilidade deve existir a despeito da escolha.

mas nenhuma resposta veio.

está aborrecido comigo? por te fazer me seguir inutilmente até aqui?

deixo-me influenciar com muita facilidade. quando não o faço esqueço minha função.

agora posso ir?

talvez um dia se arrependa de ter gritado tanto, por nada.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

último desejo

a morte veio a cavalo bater na porta da casa transparente em que morávamos. pensei morrer, senti bem de perto a frieza apagar a última centelha. e o ar repleto de ausência a me sufocar. uma goteira corroeu toda minha roupa. o que era desejo secou antes da última gota de vinho. sinceramente não era o que queria. ver o que construi com as mãos, esse amor que era uma cidade louca onde as pessoas morriam nas calçadas, agora todo embolorado. definhando. abandonado ao conforto das coisas e dos discursos caducos.

aos poucos sem festa, sem fogos de artfícios, sem lua. a cama nova em que nunca deitei apodrecia vazia no tempo. a vitrola calada esperava sua hora de ir também para o lixo, se é que o teto não desabasse e tudo virasse entulho com a próxima tempestade.
Justificar
as garrafas vazias amontoadas em cima da pia. as guimbas de cigarro espalhadas pelo quintal. a boca seca e o silêncio no andar de cima. até os matinhos insistentes que nasciam nas rachaduras do cimento, tudo com cara de morte.

outra vez na lona. esperei a contagem. eu estava nervoso. cansado. abatido. olhar desvairado. caindo de fraqueza. era a morte? sei lá. parecia.

mas resolvi ressuscitar alguma coisa por ali.

cuspi na cara da morte!

e cai dentro da noite, enquanto seguia os passos que todos desvelos de minha vida marcaram, ruminava suaves sinais sem rumo. e girava a noite velozmente sobre suas rodas invisíveis.

o vento soprou meu destino. um revertério no tempo e fui parar num botequim na Lapa dos anos
30.

sem estranhar mais nada, pedi um conhaque e uma cerveja ao garçon. ele trouxe. eu bebi. um homem debruçado no balcão cantarolava um samba antigo. intercalando a poesia boemia na batida da caixa de fósforo com uma tosse horrível de cachorro doente.

entre um verso e outro. tossia. e a intensidade da tosse era a mesma das palavras que saltavam de sua boca torta. o homem cuspia sangue e cantava os derradeiros versos dedicados a sua amada, a dama do cabaré.

sentei-me a seu lado e ofereci uma bebida. perguntei se precisava de ajuda. fiquei comovido com aquele pobre diabo. eu andava sentimental demais. as vezes me sentia um babaca por isso. em todo caso o homem recusou e agradeceu, me dizendo que aceitava a bebida, mas que não imaginava de que outra forma poderia ajudá-lo.

o homem bebeu rapidamente como se o mundo fosse acabar naquele instante. tossiu. tossiu . apertou-me uma das mãos e com a outra entregou-me um guardanapo dobrado.

saiu cambaleando, virou a esquina e sumiu.

eu acendi um cigarro e desdobrei o papel. era a letra de um samba. um samba triste. uma espécie de carta de despedida. expressando seu último desejo.

AOS AMIGOS DIGA QUE ME AMA. AOS QUE DETESTO DIGA QUE NÃO PRESTO.

foi assim que voltei a vida. tomando uma, às oito da manhã, num Bar da Lapa, em plena terça feira, pela primeira & última vez, com Noel.

meu coração voltou a bater.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

É COISA DO DIABO, PÓDI CRÊ

para ler ouvindo a canção Todo Amor de Carlos Cachaça


no começo tudo são flores. plantas carnívoras no pêlo de singelas margaridas que têm o perfume das rosas. nesse tempo, risinho sacana é bacana. urubu vira meu louro. menstruação, suco de uva. todos os pecados são perdoados os prejuízos esquecidos. os defeitos suprimidos. a cruel verdade da vida se enfeita de doces promessas e entregas pra um futuro eterno, que intimamente se espera que nunca chegue. tudo é pretexto pra gozo descomunal, até o bafinho matinal. no céu cinza de guarulhos um avião em pane vira estrela cadente. até apanhar da polícia passa a ser romantico. passa-se mesmo a admirar a lua como se ela não fosse apenas um monte de bosta cósmica no estúpido espaço sideral mais próximo.
a bebedeira fica simpática. a barba não espeta. a fumaça do cigarro tem odor de jasmim. três dias sem tomar banho e o caboclo fede gostoso. a dança boba da cabrocha se transforma na mais fina obra de arte. e a arte escorre pelo ladrão, como se qualquer peido nos braços dela fosse arte. crê-se mesmo no invísivel. desprezando a realidade que grita e fede nas ruas. ficamos íntimos da serpente. displiscentes, criamos a cobra em casa. um veneno tão doce e cheiroso que sentimos que vale a pena cultivá-lo sempre ao alcance.
esperando o bote certeiro da fera. alimentamos sem cuidado e com esmero esse bicho medonho. esse cão dos diabos, que os insensíveis chamam de amor. que os metafísicos denominam de essência e que no fundo no fundo não passa de um desarranjo intestinal causado pelos hormônios incumbidos de proliferar a espécie. ferramenta selecionada em nós pela natureza para que pudessemos estar aqui, agora. fudendo uns com os outros fudemos o mundo todo que fode com tudo mundo enquanto é fodido pelo o universo , que é a maior buceta que existe. é de se pensar no caso.

mas tem gente que acha pouco e quer um para gozar e o outro para sofrer.

amor, maldição dos diabos posta na encruzilhada. trabaio forte. tranca dura. amarração. é obra do coisa ruim nas mãos do pobre cambono, que faz a vontade do dono e leva a farofa adornada de pimenta e carne de bicho assada. um charutão pro santo negrão vaidoso montado no cavalo manso que morreu pensando que era bonito ser feio, gostando de fogo e cachaça, mulher bonita e desgraça que não é besta nem nada e anda por ai vagando atrás de alma atrasada.

quem é que pode com o amor?

juvelino achou que podia. saiu virado no cão. numa sexta feira treze. abraçando a dona do feitiço. e de quebra toda a roda da gira. cheio de bala na agulha e lero-lero a dar com pau. vestiu a fantasia de homem fatal e desempenhou sem pena seu papel de comigoninguempode, zombando da reza braba.
caiu lindo nos braços daquela loucura e achou foi pouco. não jogou nada pro santo. secou até a última gota da garrafa e pensou: o santo se quiser que compre.

sem pedir licença no terreiro armou seu circo itinerante e fez alvoroço com ar de quem não sairia dali tão cedo. e de fato superou o tempo estimado. sem arredar o pé, mostrava que não era qualquer macumbinha que iria estragar aquela foda amorosa. preto véio acostumado a espantar neguinho assustado na primeira, quando viu juvelino levando na raça só no sapatinho, ficou brabo e reclamou que a oferta foi pouca.

mandou trazer de longe, farinha importada da itália e carne de bufalo holandês. treinou os cambonos na pernada e pediu charuto cubano, uisqui escocês e cerveja alemã, que santo moderno é meio enjoado. gosta de coisa fina. se não o vudu num desenvolve direito. e a praga num pega de jeito. mandou armar a quizumba num lugar chique reservado pra abrigar a classe média decadente e os aspirantes a metidos a bestas. cheio de vela acesa pra manter o romantismo da siquizira iluminado, mas do jeito que a coisa anda pai véio ainda vai pedir refletor elétrico e raio lazer.

ai juvelino num deu conta. não vale mais a briga nem a paga. santo capitalista tá cheio de razão com deus e com o diabo. e ai ninguem pode.
juvelino revoltoso que sempre foi, meteu uma pedrada na prenda do santo vaidoso bebeu o drink do mandrião desencarnado e fumou o seu charuto, que ninguém é de ferro.
deu uma banana pro exú. e falou: se é só isso o que ocê qué pode levá. meus passarinho eu crio sorto. mais só não o faça sofrer mais do que merece. isso já é marvadeza demais.

cada um sofreu o tanto que podia, nem mais nem menos. o frio sempre é vendido no tamanho da coberta.

e o amor eterno durou dois contos de réis - suposto custo da desgracera toda. que no fim sempre quem paga é o povo!

saravá!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

As baratas

Baratas são artrópodes da classe dos insetos. Todavia, para os humanos, elas não tem nenhuma classe e são seres bem asquerosos. Qualquer um de nós é capaz de matar uma barata fácil, fácil. Muitos tem pena dos pássaros, alguns gostam das tartarugas, outros dos pandas, porém ninguém sente qualquer compaixão pelas pobres baratas, aliás todos sentem é nojo só de pensar nelas existindo por ai. Mas a despeito de todo empenho humano aplicado para exterminá-las, elas resistem e estão por toda parte, até mesmo nos lugares mais improváveis. Habitando os cantos mais inusitados, ocupando frestas inóspitas, enfeitando os lindos esgotos da vida ,vivendo dos nossos restos, enfim, foda-se.

As baratas estão mesmo fadadas a serem bichos escrotos. Para elas não há salvação. Nunca ninguém fundará a sociedade protetora das baratas, nem levará os filhos para visitá-las no jardim zoológico ou no circo. As baratas estão sozinhas nesse mundo cão.

Atento para o fato de que apesar das adversidades as baratas continuam firmes. Inventamos inseticidas cada vez mais potentes, venenos cada vez mais eficazes mas elas resistem e não dão nem sinal de que podem entrar em extinção algum dia. As baratas não estão nem ai. Não ligam pra nada mesmo . Não são de fazer cerimônia. Persuasivas, nunca são bem vindas , embora quase sempre compareçam. E sempre vistas com maus olhos.

As baratas não servem nem de cobaia porque não são de confiança. Ninguém coleciona baratas como fazem com as borboletas. E elas parecem não ser tão unidas quanto as formigas. Embora aparentemente sejam mais livres. Elas sobrevivem sem celular, não vão nunca a teatros e não navegam na Internet, ou seja, elas não tem o mínimo de sofisticação.

As baratas não lêem a bíblia. Elas mofam e ficam a espreita. Na calada da noite surgem timidamente e se instalam onde não foram chamadas. Acho que as baratas já sacaram que os humanos não vão com a sua cara. Elas são bem espertas. Parecem tolas mas não são não. Elas se acham espertas em seu mundinho de bosta e assim como nós vão sobrevivendo.

As baratas são meio chatas e possuem antenas além de patas articuláveis, ah! e também exoesqueleto. Baratas não tem sangue de barata. No lugar do sangue elas tem linfa – uma meleca branca que serve muito bem para elas viverem. Barata não tem medo de barata mas não se arrisca muito com outros bichos. Elas ficam na delas. As mais audaciosas saem voando para desespero das fêmeas da espécie humana que, quando estão naqueles dias, choram. Com as baratas não tem frescura, mesmo as baratas fêmeas são duronas e cospem em tudo. As moscas podem voar bem mais alto embora sobrevivam por apenas algumas horas. A vida de uma barata pode durar semanas para o desespero das pessoas. Como já foi dito as baratas não lêem a bíblia, mas nem por isso vão para o inferno, elas acreditam no seu deus baratão que vai salvá-las no final. Não sabem rezar mas mexem as antenas para manifestar seu apreço pelo inseto superior.

As baratas são alegres e calmas e às vezes agitadas e tristes. Às vezes elas se fingem de mortas ficando de barriga pra cima mas depois ressuscitam e dão no pé. As baratas comem de tudo menos barata, o que já demonstra um certo grau de civilização.

As baratas não dormem nunca, nem escrevem poemas. As baratas são simples, modestas e até simpáticas, quando estão mortas. As baratas não gritam nem se desesperam, pois não são de fazer alarde. Elas suportam.

As baratas velhas ensinam aos seus filhos baratinhas a temer os humanos e a mexer as antenas em louvor ao todo poderoso deus baratão, pobres baratinhas indefesas que são.

Cada transa de uma barata dura em média um segundo. De uma transa bem sucedida podem surgir mais de duzentas baratinhas de uma vez. Essa deve ser uma possível explicação para haver tanta barata assim no mundo. Dizem os cientistas , aqueles caras que estudam as baratas e tudo mais, que somente as baratas resistirão a um desastre nuclear. Como se pode notar as baratas são obstinadas e não são de morrer por qualquer bobagem. Elas não fundaram um sindicato para garantir os direitos da classe por que não leram Marx e portanto estão alienadas. As baratas se trabalhassem numa fábrica certamente seriam exploradas. Ainda bem que elas são autônomas.

As baratas não contam o tempo, elas apenas se entopem de porcarias e depois defecam. Ainda bem que as baratas não são do tamanho dos elefantes. Acho que as baratas não sabem de nada. Nem imaginam o que está por trás de tudo. As baratas são tão distraídas que nem sabem que existem. Elas apenas aparecem ali e ficam.

As baratas não sacam Nietzsche nem nada. Do contrário se tornariam super baratas e zombariam do deus baratão. Além do mais diriam que o deus baratão morreu e que foram as reles baratinhas que o mataram. Mas de fato isso não acontece.

Eu não seria capaz de comer barata nem mesmo por grana. Mas se estiver passando fome quem sabe? Não tenho menos nojo de barata do que de gente. Gente também é bem nojenta. Não gosto de barata mas se fosse um costume antigo ou uma nova moda tê-las por bicho de estimação talvez eu não pudesse resistir e teria uma. Seu nome seria Kafka.
Entretanto, como diz um velho ditado humano – Barata boa é barata morta!

sábado, 19 de dezembro de 2009

te amo, porra!

Queria te contar um sonho. um pesadelo. Ontem comi salada de berinjela com vinagre, devia ser meia noite. Acendi um cigarro, sentei–me num banquinho da área e fiquei olhando fixo para as grades da rua... escura e parada, sem pensar absolutamente em nada. Fiquei assim durante uns trinta segundos. Dei algumas tragadas e cocei o saco maquinalmente, atirei a guimba, balancei a cabeça e fui pro quarto. Peguei um livro e comecei a ler. Depois de alguns capítulos fiquei abismado por me sentir tão parecido com Henry Chinaski. Eu arriscava a minha personalidade com essa merda. E percebi como meu trabalho estava me imbecilizando. Notei o quanto tenho me tornado coisa. O quanto tenho adiado tudo. E que cada nervo do meu corpo estava ficando condicionado a agir só em função de coisas como dinheiro, chaves, papéis e outras porcarias. Mas deixemos isso de lado, eu queria era contar o sonho que tive. parece coisa de bicha, mas vamos lá então:

Fui ficando sonolento e não me lembro quando deixei que caísse de minhas mãos o Misto Quente. Deve Ter sido quase um desmaio, uma espécie de morte. Foi quando beijava aquela boca loucamente como nos velhos tempos. E sentia que ela era minha. Sentia-me forte e confiante. Sentia que era o dono da situação, e, portanto, não estava nem ai. De repente ela sorriu aquele riso inconfundível e me pegou pelas mãos. Foi me arrastando para um lugar cheio de gente que eu nem fazia idéia quem era. Aquela voz me dizia coisas sem parar num ritmo frenético e eu não entendia uma só palavra. Fui achando tudo muito estranho. Só piorou quando durante um átimo de tempo ela sumiu, andei procurando-a em meio aquela gente toda e logo a encontrei cercada por seguranças, homens negros sorridentes de dois metros de altura que me olhavam com escárnio e deviam me achar um bosta, o que fez me fez sentir-me isso mesmo. O que eu ia fazer? Naquele instante pensei que se tivesse um revólver mataria todo mundo naquela bosta, mas na verdade me sentia tão fraco que se tivesse mesmo uma arma provavelmente não conseguiria nem segurá-la e antes que eu me desse conta ela apareceu em minha frente com um bebê no colo. Não dava pra saber se era seu filho, pois era uma criança muito pequena. Ela parecia preocupada e melancólica. Eu não tive reação mas me senti esquisito. Ela me olhava como quem dizia – a vida é assim mesmo fazer o que, cara?!... foi quando apareceram dois coroas , um casal, que parecia ser conhecido seu. Eles não falaram nada que eu me lembre, mas parece que queriam que fossemos para a casa deles. Então eu a segui novamente, você me puxando por uma das mãos. Eu ia sem saber pra onde, mas um pouco aliviado por sairmos dali. Havia um grande tumulto e quando passamos por uma janela suspensa lá estava debruçada Samantha Abreu, que não era mais escritora e sim nadadora que havia acabado de conquistar uma medalha de ouro nos jogos inter-regionais e todos a parabenizavam. Eu queria parar para falar com samantha, mas ela estava com pressa e me puxava... de repente eu hesitei e ela sumiu mais uma vez na multidão. Samantha acenou para mim e fechou a janela para escapar daquela gente toda querendo se aproximar. Eu fiquei totalmente perdido. Não conhecia aquelas ruas. Todas estreitas demais e mal iluminadas. Fortes subidas por onde eu me arrastava sem forças para me mover. Sentia vontade de chorar, mas nem isso conseguia. Que merda, eu havia me tornado um sentimentalista Estava paralisado. Sentia medo. Sentia-me como uma criancinha de sete anos que se perdeu dos pais nas ruas da cracolândia. Uns caras mal encarados vieram me pedir uns cigarros para fazer cinza e eu dei. Eles se mandaram me avisando que a polícia iria pintar por ali. Que merda de amor, eu pensava. Eu só queria acordar. Estava quente, eu rolava na cama. O ventilador estava quebrado. Eu sabia que era sonho...
O despertador tocou as quinze pras oito como de costume; e pensei novamente... que merda...
Caguei, limpei o cu porcamente e dei a descarga. Bebi um copo de água provavelmente contaminada com coliformes fecais, vesti a máscara, acendi outro cigarro e fui pela rua do correio fumando e pensando; EU TE AMO, PORRA!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

na porta dos cabaréis

homenagem ao cego Oliveira


supondo-se que estivesse vivo naquele tempo devia estar com uns 40 e poucos anos e não tinha me arranjado em nada na vida. só andei por ai cagando e peidando, realizando tarefas banais a troco de migalhas. estava cansado e me sentindo com um século de vida desperdiçada. é isso o que chamam de vida? pois pra mim é uma espécie de morte. o sujeito nasce pra morrer e vive morrendo. a vida consumia a gente. consumia mesmo. e era tudo lixo. tudo a sua volta. o trabalho. a tv. a comida. a opinião pública. o senso comum. o normal. o anormal. a vida que as pessoas levam. cultuando bestas. sendo comandadas por idiotas. todos idiotas demais pro meu gosto. andava me sentindo muito idiota por fazer parte do mundo desses cretinos. pois o mundo é dos cretinos. eles ditam as regras. eles ocupam os espaços com a sua imundície. com toda a conversa mole de sempre. eles tocam a sinfonia e os ratos dançam feito zumbis chafurdando na merda.

eu andava me preocupando demais com essa porra toda. a vida. a morte. e todo o despropósito que separa uma coisa da outra. todo esse entulho se proliferando em minha mente. contaminando minha imaginação. não podia me concentrar com todo aquele barulho. não podia gastar mais meu tempo com aquilo. mas a vida era perda de tempo de qualquer jeito. não faz sentido mesmo.

mas saber que não faz sentido acaba fazendo algum sentido. então resolvi que amanhã seria um dia melhor.

eu precisava tirar férias. precisava sumir por uns tempos. mudar de cidade. de país. quem sabe saturno? precisava aparar o bigode e cortar as unhas e os pêlos do nariz. precisava de três mulheres e precisava ficar sozinho, às vezes. precisava comprar cigarros, tirar a cera do ouvido e me exercitar um pouco. precisava de um revólver - que é o pau mais duro que um homem pode ter...

esqueça tudo isso. eu só precisava arejar as idéias, clarear a mente um pouco, tirar o pó da goela. um pouco de diversão era o que eu merecia. todos nós, aliás.

sai pelas ruas um pouco mais confiante. sabia que era tudo uma merda mesmo e que a maioria das pessoas com seus cérebros de algodão doce não entenderiam isso nunca.
então me dirigi para o primeiro bar que fosse um pouco descente, o que pra mim significava bebida barata e um pouco de sossêgo. um homem precisa de um pouco de sossêgo, às vezes. passamos a vida toda inquietos, correndo atrás de algo que nunca sabemos extamente o que é. e quando descobrimos, vemos que não era nada daquilo que a gente pensava. só trabalho inútil. um monte de merda. então que pelo menos algum dia na vida um homem possa acomodar tranquilo o seu traseiro numa cadeira aconchegante e pedir uma bebida quente, para degustar enquanto fuma um charuto sem pensar em nada.
foi o que eu resolvi fazer.

o lugar parecia bacana. não tinha muita gente. alguns gatos pingados debruçados no balcão que atravessava todo boteco tomando conta da lateral esquerda de fora a fora. o garçon era um branquelo magro e comprido de bigode fino, parecia um cara desses que fazem alguma coisa no circo. atirador de facas. malabarista. palhaço. ou podia mesmo ser um anão disfarçado. naquele tempo eu não duvidaria de mais nada - se uma cadeira saisse voando eu não estranharia- mas acho que, ele, se trabalhasse no circo seria o limpador das bostas dos elefantes. mas no teatro da vida naquele exato instante ele era o garçon e eu, eu não sabia ao certo...

havia algumas mesas espalhadas pelo resto do salão e estavam quase todas desocupadas. escolhi uma mais no fundo, onde ninguém fosse me perturbar. o cara do circo me disse:
- o que manda chefe?
- sem essa cara. quem tem chefe é indio. eu só quero uma cerveja gelada.
ele me pareceu meio ofendido com o que eu disse e perguntou antes de ir:
- mais alguma coisa, cara-pálida?
- uma cachaça pra quebrar o gelo.
ele ainda me perguntou antes de ir:
- o senhor não deseja conhecer o andar de cima. temos ótimas estalações.
- não quero me hospedar, só vim atrás de um pouco de sossêgo e uns bons tragos.
- ok, sendo assim, sem confusão por aqui, hein!
- palavra de índio!

cada um que me aparece. deve ser um punheteiro da porra. cafetão dos infernos. as pessoas só pensam em foder foder foder foder foder e mais nada. isso é coisa pra bicho. se você não encontra alguem bacana a foda nem vale a pena. pagar pra foder, nem fodendo. de qualquer jeito é sempre meio deprimente.

quando o tocador de realejo foi chegando com a bebida eu pensei que teria o meu momento naquele dia. enxuguei o suor da testa e acendi um cigarro pra espantar os mosquitos. ele botou a bebida na mesa meio insatisfeito, jogou a ficha e mandou que eu pagasse na saída. se virou para o balcão e foi se afastando e eu não pude evitar o pensamento de que ele era um velho chipanzé doente se arrastando de um lado pro outro em sua jaula apertada. dei uma golada na cerveja e uma bicada na pinga, uma boa tragada no cigarro e a fumaça se dissipando em aspirais circulares, se espalhou feito nuvens seduzindo minha atenção, diluindo qualquer pensamento possível. um espécie de nirvana momentâneo. que é difícil descrever por que a experiência não requer palavras, segue outra lógica, a lógica dos sonhos, dos devaneios, dos delírios, enfim, foda-se,quem quiser saber melhor que levante seu traseiro daí e vá para as ruas experimentar as melhores e as piores coisas da vida. na maioria das vezes é tudo merda. mas não dá pra negar que as melhores coisas do mundo geralmente também são as piores.

tinha uns coroas interessantes por ali. uns caras das antigas. pareciam ter sido durões no passado, enquanto ainda não eram esses maracujas de gaveta que estavam ali bebendo e ouvindo música sertaneja. eu mesmo já estava me sentindo um cara das antigas. não me enquadrava no meu tempo. considerava o passado uma merda e o presente ainda mais. o que me mantinha vivo era o futuro. não que fosse alguma novidade ou que eu tivesse grandes esperanças. no fim ia dar tudo em merda mesmo. porém eu queria estar lá pra ver. queria saber como era essa coisa de morrer e tal. de qualquer jeito já tinha chegado até ali e iria até o fim. pensar assim era o meu jeito de ser um cara durão.

sequei aquela garrafa. matei a pinga e pedi outra rezando para que a mulher barbada não puxasse assunto comigo.

o garçon do circo de pulgas me pareceu indiferente dessa vez. enchi o copo e fiquei bebendo sem prestar atenção em nada - ouvindo aquele barulho ensurdecedor de gente conversando ao mesmo tempo e música tocando. e os grilos. e as cigarras. o cacarejo das mulheres. cadeiras se arrastando. copo quebrando. risada. grito. o eco dos ouvidos. todos esses sons misturados eram um mantra relaxante se você não parasse pra pensar, avaliar melhor a circunstância. de modo algum eu queria avaliar qualquer coisa. foda-se. já havia decidido. é preciso ser forte para saber com o que se está lidando e ainda continuar nessa. de alguma forma eu queria ter o controle.

bebi mais e mais. muitos cigarros. mais uma. mais outra. as garrafas vazias foram se empilhando em cima da mesa e eu já estava mais confiante do que devia. já não me importava se o mundo era um mar de bosta ou um paraíso afrodisíaco cheio de virgens. depois da décima cerveja seguida qualquer homem perde as estribeiras e acaba sedendo aos impulsos animalescos que são muito potentes quando se está de porre.

ela se aproximou da minha mesa. belas pernas. cabelos negros. e olhos de pantera. besta, ofereci um drinque. ela aceitou, é claro. sentou-se. cruzou as pernas. que pernas! ficamos ali jogando conversa fora. aquele velho blá blá blá de sempre. cada vez ela chegando mais perto. já podia sentir seu hálito de cigarro de menta. eu não ouvi uma só palavra. enquanto ela tentava me ludibriar na bicaria, meus olhos conversavam com aquelas pernas.

não conseguia pensar em outra coisa. me esforcei mesmo pra pensar em qualquer outra merda. na condição humana. em toda a merda política e financeira. na fome. na miséria. na porra da vida que se leva. na morte.

mas nada, nada funcionava. eu parecia a besta fera babando e só pensava com a cabeça de baixo. ela sem fazer cerimônia sentiu minha fraqueza e foi logo dando o bote. fez-me um elogio qualquer e eu baixei a guarda. então botou as mãos por debaixo da mesa e começou a acariciar a minha pica, que já estava quase estourando só de estar tão próxima daquelas pernas. eu queria aquelas pernas de qualquer jeito. queria entrar no meio delas. quando nascemos saimos do meio das pernas, é uma tendência natural querermos voltar para lá. naquele instante eu me casaria com aquelas pernas. antes do padre abrir a boca eu diria sim sim sim e cairia de joelhos.

ela percebeu que a coisa estava ficando quente e quase que bruscamente recolheu as mãos das minhas partes e pediu outro drinque. a desgraçada bebia mais que opalão seis canecos.
comecei a tentar prestar a atenção. fodeu. não podia me livrar do apelo daquelas pernas. e ela sabia bem o tesouro que guardava ali. e eu estava afim de descobrir qual era. não que eu já não soubesse como era, mas a gente sempre pensa que é um mistério de novo. a gente é trouxa pra caralho.
é assim que a banda toca. é assim que desperdiçamos energia. é isso o que aspiramos com outros pretextos. é isso o que chamamos de vida? é puxar a cordinha e ver a merda descer pelo esgoto. no fundo é só isso sobre o que escrevemos. é esse o motor da máquina. a razão da bolsa de valores. a causa dos conflitos internacionais.
perdão, mas bêbado pensa alto, por isso é mais sincero.

ela fez sinal com os olhos inclinando a cabeça e apontando pra escada. se lavantou ajeitando a saia curta e saiu rebolando na minha frente. a dança louca daquelas pernas - o velho ritual do acasalamento . e eu era um macaco punheteiro no cio seguindo aquelas pernas como os ratos encantados seguiram o flautista para fora do reino. seu feitiço era forte. seu preço, nojento. era terrível saber que ela estava fazendo aquilo por dinheiro. eu poderia lhe dar coisas mais interessantes, mas ela preferia dinheiro. depois pensei que se eu fosse ela talvez faria o mesmo. escrever de graça é um pecado mortal. cada um tem que usar o que tem. tudo vale a mesma coisa. entre a literatura e as pernas. eu fico com as pernas. pelo menos foi o que pensei na porta do quarto.

meia hora depois - foi o que pude pagar- eu estava do lado de fora. como se tivesse levado um belo chute no traseiro. e de fato a vida era um belo chute no traseiro da gente. e a morte o que seria? se persistirmos na vida um dia saberemos.

mas por enquanto eu precisava de mais um trago. minha grana já tinha miado. saí do bar e me sentei no meio-fio. de volta à estaca zero.

de repente um velho cego cantador se aproximou de mim com sua rabeca e eu já fui logo lhe avisando que não tinha um tostão. ele sacou de seu rude instrumento e tirou dele um som estridente e meio irritante com suas mãos calejadas. seus versos falavam sem fazer curva, sem nenhum vareio

seu moço não façavoroço
eu canto com muito gosto
pra quem quisé mi ouvi

eu canto só pu prazê
u qui eu não posso vê
cantando eu tento esquecê

nas pensões, nos botequins e nos hotéis
numa vida di prazê

u tempo foi si passanu
acabou-se a minha vivênça
i tudo foi si acabanu
uqui eu tinha di riqueza
perdi até o sossêgo
não mi deram mais emprego
nem sapato pra meus pés
acabou-si a fantasia
eu vou terminar meu dia na porta dus cabaréis.





quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

vida e morte de sebastião onório

meu nome é sebastião onório, mai tudo mundo me conhece só por tião. fui nascido i criadu na roça, tenho 54 ano i hoji moro suzinho. mai já fui casado trêis veiz i não tenhu nenhum fio. não mi arrependu nem mi orguio di nada dissu.
meu pai foi homi muito pobre. fio di homi muito pobre. famia grandi. tinha uns deis irmão. vivia sempre passanu necessidadi das coisa i inda por cima meu avô era homi muito brabo. rijo ca famia, otoritário. mai meu pai - meu véi sempri dissi- ele num teve instrução, foi inducado na basi da vara. era surra in todo santo dia, i das veis a noite tamem, quando a mininada fazia muito baruio entrava nu reio. o povo antigo da roça inhera sistemáticu pur demais, durmia cedo i levantava antis do sor. tinha que cuidá das coisa das roça, ará, campiná i tratá dos animar i isso era sagradu. tudo mundu tinha que trabaiá, deisde minino. cum meu pai num foi diferenti. deisde us 5 anu meu avô, o véio niculal martimiano, já fazia o cuitado fica ispantano passarim nas roça de arrois i levá us carderão di cumida pos mai véi qui já pegava nu batente. nenhum deis teve infância. era uns tempo difícir aqueis. toda vida inscutei essas istória. a muié du meu vô era mestiça india cum caboco. meu pai dizia que o véio niculal tinha catadu ela nu laço, inguar si fais cum criação braba. minha vó era braba. mai num era animar, sempre achei isso mei cruer da parti do véi niculal. mai ele era assim memo - meu pai dizia- num dianta, burru véi num pega marcha.
minha vó si chamava rosalina frausina di jesuis, mai u povo conhecia ela só por rosa. ela morreu quando meu pai tinha uns 5 anu didade. era doenti dus nervo, cuitada, i naquele tempo a midici na num era avançada qui nem inhé hoji i memo qui fossi niguem tinha dinhero pa í nu dotor. alem di sê muitu longi, lá na cidadi, i a condução sê difici, não si podia perdê dia di trabaio. trabaiava-si muito naquele tempo. trabaiava trabaiava i vivia na miséra. só us patrão é que inrriquecia as custa do suó du povo humirde i isso inté hoji é assim.
bão, quando minha vó morreu, meu vô ficô inda mai sevéro cus fio. virô un desgracê só. us minino, us rapaizin e as moça cumero o pão qui o diabo amassô na mão du véio. sofrero e sofrero tantu qui ficaru tudo qui nem meu vô. por modi cresce naquela miséra de vida, só trabaiano i trabaiano sem tê nada. ninguém deis escapô du destino crué du vei niculau. qui mar ô bem ,trabaiô a vida intera e morreu sem tê ondi caí morto. tudo eis passaro fomi i num tiveru istudo. resurtado ; ficaru tudo chucro.
casaru sem amô nu curação. fizeru um monti di fio qui fizeru mai fio. qui tamem crescero daquele jeito. eu, tião, sô um deis, mai só qui não tivi fio. num sei purque mai eu achei foi é bão. purque ua hora dessas us coitadim ia tá cu isntobago roncanu qui nem porca parinu. i eu num gosto di vê criança passanu necessidadi. sempre achei cus coitadim num tem curpa. são tudo inuscenti. qui vem nu mundão di meu deus sem pidi i paga u pato da misera dus antigu.
bão, eu nunca curpei meu pai, nem meu vô por causa du meu sufrimentu i das minha dificurdadi. sei qui eis era burro demais i simprão. num tinha tino pá sabê qui a curpa era dus ricu. us fazendero qui era us donu daqueis mundu di terra qui nóis trabaiva e cuidadva preles. nóis trabaiva discarço i passano fomi pos fios deis vesti sapatu bão di coru i enchê u buchu de cumê bão nus restoranti da cidadi. nunca passaru pela cabeça deis qui us ricu exprorava tudo nóis, us pobre. mai eis era donu daquelas terra tudo pruquê eis robaru dus indio. minha bisavó era india. se fô vê intão aquelas terra era nossa i eis qui robaru tudu di nóis, na pura marvadeza.
nói us pobre, sempre trabaiemu muitu. nossa vida sempri foi trabaiá i trabaiá, nóis num tem marvadeza. num queremu sai purai robanu terra dus oto. i si fô vê a terra num é di ninguém. é di deus i di quem trabaia nelas. nóis nem pricisava di tudo aquilu di terra. pá nóis un pedacim di chão pá prantá batata, mandioca i inhami já tava bão. só pá nóis te vida de genti. poi nói era genti mai vivia quasi inguar bicho.
eis num tivero cuca pá intendê essa falcatrua dus barão i só pur isso vivia um discontanu a disgraça no oto. us pai discuntanu nus fio uque us vô tinha feitu nus pai. i assim foi. foi ino. foi si aumentano a misera i u sofrimento i a arma desses homi foru ficanu cada veis mais dura. cada veis mai seca. cada vei mai chucra. inquantu us ricu foru ficano cada veis mai ricu .cada veis mai fominha i cada veis mai marvado.
eu num tivi portunidadi di frequentá as iscola, mai aprendi tudo isso cu a iscola da vida. di tantu apanhá i passá fomi, veno tudu aquilu acuntecê dianti das nossa venta. venu nossos parenti tudo morrenu i si debatenu entri eis. isperano um milagre dus céu ô ajuda du guverno.
deus já deu tudo pá nói. óia esse mundão ai ó. cheiu di coisa boa na natureza. terra pá nói prantá a vontade. pá tudo as famia. muita aguá pá bebe i pá tudo, dus rio i dus ocianu. as arvi, as pranta, inté as pedra deve di tê arguma servintia. i o povo inda qué mai di deus? deus já feis inté di mais. pruque já ouvi dizê qui inté otos praneta tem purai nu céu i ele deve de sê muito ocupadu pruque deve tê muita genti pió qui nóis pá cuidá. muito miserê pelu céu a fora. aqui nói podia resorvê nói memo. us homi. mai insperá ajuda du guverno tamem num dianta. eis só ajuda us ricu qui já num precisa di ajuda. u negócio era oto si us pobre si juntasse i resorvesse eis memo. tomanu tudo de vorta as terra qui us rico robaru du povo humirde. tuda a raiva qui nóis tem qui tê num é dus nossus iguar. nóis é tudo du povo. povo pobri sofridu, judiadu do sor.
por issu eu achei bão num tê fio. por issu eu num mi intendi cuas minha muié. eu num quiria judiá deis. batenu i dexanu eis passá fomi.
prefiri sê suzinho na vida qui minha sina eu sigo mió sem curpa. meu fardu eu carrego suzinho sem ajuda di ninguém i sem atrapaiá ninguém. suzinhu eu pensu mió, i intendu um poco du que acontece nesse mundu véio sem portera. vô morrê sem dexá conta pá ninguem. ninguém vai precisá chorá na minha cova. nem pagá minha sepurtura. por mim pode dexá meu cadávi apudrecê nu pasto pá matá a fomi dus urubu i dus vermi.
assim eu acho mai certu. demorô minha vida intera mai a vida du meu véio e a du véio dele pá arguém percebe issu. i assim num dévi di continuá poi sinão us homi ricu vão acabá inté cu mundo. acho qui minha istória podi servi di exempro pus jovi di hoji, fio di pobre qui vévi di quarqué jeitu. essa é minha herança preles i pra tuda gente pobri sufrida. i apruveitu pá dexá um avisu pus homi ricu se um dia eles mi ovi ; eu, tião, vivi qui nem bicho, mai num sô bicho, pur issu prefiru morrê qui nem homi. agora ocêis, us coroné, us fazendero, us propetáru, us guvernanti, fiqui sabeno, qui já num tarda a hora docêis tamem vai chegá , i aí qui eu queru vê pra que qui vai servi tanta ganança na faci da terra.

sujeito do verbo da oração principal

ó pai, ó padastro, ó filho bastardo!
ó senhor eu, mestre e escravo de mim mesmo
e de todo universumbigo
livrai-me da vaidade excessiva
e do orgulho cego
protegei-me contra a cobiça
esmagai em mim o ego
dai-me o senso de justiça
mas não deixai eu cair na ilusão
livrai-me tambem da realidade
porque minha é a ignorância
e meu é o medo
sem hipocrisia nem falsa modéstia
deixai-me cair em tentação
e deixai-me perder tudo
para que eu saiba dar o devido valor ao resto
para sempre
ame e ame pracaralho

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Rei Mortadela

depois de mais um dia de adianto ferrado, pintando paredes, subindo e descendo escada, ele saiu exausto e foi descendo até as ruas debaixo. vasculhando nos bolsos da calça surrada e suja. era verão e ele suava feito um bode. andava não sei por que com a Billie Holiday na cabeça. e a grana só dava para um conhaque e um maço de cigarros vagabundos. começava a escurecer e estava um calor de matar. ele estava com uma sede dos diabos. entrou numa birosca perto da antiga linha do trem. atmosfera densa, azul de fumaça. as pessoas que ali se encontravam pareciam terem sido besuntadas com banha de porco.
sem fazer cerimônia ele adentra ao recinto. pede um conhaque presidente e um maço de vila rica. engole prontamente o conhaque, risca um fósforo concentrado e acende um cigarro. dá uma olhada ao redor e todos ali indiferentes. ele sai fumando pra espantar as moscas, amenizar o gosto de gasolina na boca e iludir a solidão. olha a rua de relance e chacoalha a cabeça para por as idéias no lugar. a lua está cheia, mas quem se importa com a lua por aqui? ele não. foda-se a lua fodam-se os lunáticos. é só uma coisa lá no céu, sem mais nem porque.
então ele enrola um cigarro de artista, dois ou três tapinhas e volta pra casa da mamãe pra encher o bucho com os restos frios da janta.
era estranho estar em casa - ele pensava: sempre fui um estranho na minha própria casa. ele sentia que precisava dar o fora logo dali senão quisesse enlouquecer antes da hora. se for pra enlouquecer, que seja na hora certa - pensou.
e ruminando planos para a fuga foi acometido por um desaranjo intestinal. algo que se contorcia dentro dele. e resolveu que seria melhor adiar a fuga... o que precisava agora era dar uma boa cagada. no momento seu cú falava mais alto do que a sua insatisfação e enviava intensos impulsos nervosos ao cérebro avisando-o do seu compromisso regular.
caminhou até o banheiro pensando como era ridícula e constrangedora a sua condição de ter um cú e de ter que adiar a arquitetura de seus planos de vida para soltar bosta por ele.
e render-se ao velho ritual. o rei mortadela arreia as calças e senta-se em seu trono. contrai toda a musculatura do abdomem e força. a expressão do rosto copia. sente a coisa caminhando pelo intestino e isso lhe dá uma sensação relaxante. todos os resíduos cotidianos de uma vida de merda viajando pelas tripas até desembocar na extremidade externa do reto - o famigerado e simpático ânus.
eis que em sua atividade corriqueira ele havia sacado o perfeito retrato da triste realidade humana - somos verdadeiros tubos processadores de merda - ele tinha um modo peculiar de apreciar aquilo, antes de dar a descarga se levantava, limpava a bunda a grosso modo e ficava olhando em silêncio por alguns segundos antes de dar a descarga. depois puxava a cordinha com desdém e nojo de si mesmo e de todo mundo.

não podia negar que a sensação era a de um certo alívio. porém, era um tanto frustrante sentir prazer com aquilo. fumou mais um cigarro e se recolheu para seu quarto, onde a solidão lhe inspirava alguma dignidade. ali não tinha escapatória. não havia mais nada a fazer. meteu a Billie Holiday no estéreo e deu uma de Bukowski - socou uma punheta e ferrou no sono.